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    Inteligência Artificial no Brasil : temos mais do que parece

    “Olá, mundo!”

    Assim começo o primeiro texto que escrevo depois de alguns anos produzindo só relatórios, documentação e tese. O motivo deste retorno é uma necessidade recente de organizar e expor no que tenho trabalhado, lido e desenvolvido. Aproveitando que, como cientista de dados, escolhi me especializar em uma das áreas com desenvolvimento mais acelerado do momento: Inteligência Artificial.

    Não poderia escolher outro tema para este primeiro post. A motivação veio de dois textos: Something Big Is Happening, de Matt Shumer, e Algo grande está acontecendo na ciência mundial e o Brasil parece estar de fora novamente, de Rafael Cardoso Sampaio e Manoel Galdino. Os dois tratam, cada um a seu jeito, da corrida para desenvolver os melhores modelos de IA, além dos chatbots que já transformaram como buscamos informação, fazemos pesquisas e formamos opiniões.

    Pensa bem: há poucos meses a maior preocupação era se seríamos substituídos por máquinas. Hoje a IA já está em todo lugar, sem alarde, integrada a smartphones, redes sociais, anúncios, dispositivos. A substituição que tanto se temia virou paisagem.

    No artigo de Matt Shumer, o foco é na velocidade com que os modelos estão sendo atualizados. Ontem mesmo a Anthropic disponibilizou o Claude Mythos, modelo que deixou até os mais céticos apreensivos pela possibilidade de ser avançado o suficiente para levantar questões sérias de segurança, e o Claude Fable, mais acessível para assinantes comuns como eu e você, que não pagam mil reais por mês para sempre ter o que há de mais moderno.

    Já o artigo de Sampaio e Galdino faz um paralelo que incomoda. Enquanto o mundo acelera no desenvolvimento e adoção de modelos mais avançados, o Brasil continua fazendo ciência do jeito que dá. É quase tedioso repetir, mas a realidade não mudou: o país não valoriza quem trabalha em laboratório fazendo pesquisa. Pesquisadores trabalham quando e quanto podem, e os que têm condição seguem para o exterior em busca de um ambiente minimamente propício para produzir ciência.

    Os dois artigos cobrem bem esses pontos, mas quero acrescentar alguns aspectos que ficaram de fora.

    O primeiro é infraestrutura. Antes de falar em IA, precisa existir um lugar para rodá-la, servidores, processamento, energia. Muito se discute no mundo sobre os impactos ambientais desta corrida: modelos cada vez maiores que consomem quantidades absurdas de água e eletricidade. O que pouca gente comenta é que o Brasil tem uma vantagem real nesse contexto. Segundo dados que li no ano passado, cerca de 90% da nossa energia elétrica vem de fontes renováveis. Isso, somado a um mercado tecnológico em expansão e mão de obra qualificada, coloca o país numa posição interessante para sediar infraestrutura de datacenters e até funcionar como hub digital para a América Latina.

    Não é simples, claro. Há discussões acontecendo inclusive no Congresso Nacional, com projetos de lei e programas de incentivo para a área. Não entro no mérito da capacidade dos parlamentares de tratar o tema com o mínimo de realismo, mas a movimentação existe. Uma pergunta que fica, no entanto: energia limpa é uma vantagem competitiva, mas que contrapartida esse custo energético trará para o próprio país?

    Fora da infraestrutura, os dados de produção científica surpreendem. Entre 2019 e 2023, o Brasil produziu 6.304 estudos sobre IA, o que nos colocou entre os vinte países com maior volume de pesquisa na área. Não sei se esse número cresceu ou encolheu nos últimos dois anos, mas naquele período 73% dessas produções foram financiadas pelo CAPES e pelo CNPq. Ou seja, ciência pública, feita apesar das condições, não por causa delas.

    Não é patriotismo barato dizer que algo real está acontecendo aqui. O Brasil tem potencial para entrar neste jogo, seja como sede de infraestrutura, seja pela capacidade de desenvolver pesquisa, ferramentas e soluções. Neste ponto, sou otimista. Prefiro o copo meio cheio.

    Sei que retomar a produção de conteúdo vai ser desafiador. Mas espero conseguir contribuir um pouco nesse processo de traduzir o que tudo isso significa, trazendo tutoriais e perspectivas para quem quer fazer mais ciência com tecnologia.

    Ah, antes de fechar: a tabela abaixo mostra onde o Brasil está desenvolvendo pesquisa em IA.

    TipoInstituições Principais
    Universidades públicasUSP (2 centros), UFPE (2 centros), Unicamp, UFRJ, UFMG, UFC, Unesp
    Centros de Pesquisa Aplicada (CPA-IA)10 centros no país focados em problemas reais: segurança cibernética, educação, energias renováveis, indústria inteligente, saúde obia.nic+1
    Institutos de pesquisaFiocruz (CIDACS, LIS), IPT, SENAI CIMATEC, LACTEC
    Parcerias privado-públicasC4AI (IBM + InovaUSP), AI2 (consórcio com setor privado)

    Fonte: Observatório Brasileiro de Inteligência Artificia (OBIA) https://obia.nic.br/


    Fontes: